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"Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem."
( Carlos Drummond de Andrade )

quinta-feira, 14 de maio de 2009
Criança paciente torna-se um adulto mais saudável
Esperar é saudável
Ao investigar como o conceito de juros aparece na natureza, o economista mineiro concluiu que ensinar a criançada a ter paciência pode ser investir em um adulto com mais saúde
por IGOR PAULIN
Talvez soe estranho encontrar um economista nas páginas de SAÚDE!, mesmo sendo ele conhecido por traduzir as idéias mais complexas do mundo das finanças e até mesmo da filosofia para o público leigo o que fez com maestria em seus cinco livros editados pela Cia. das Letras. Afinal, qual seria o elo entre economia e vida saudável, ainda mais pensando em crianças? Ocorre que, em uma de suas obras, O Valor do Amanhã, Giannetti mostra que os juros fazem parte dos mais variados aspectos do dia-a-dia, e muitos deles nem têm a ver com o nosso bolso. E há ali o relato de uma experiência, no mínimo, inspiradora para quem pretende criar filhos que, mais tarde, serão capazes de fazer escolhas mais equilibradas, inclusive em relação aos cuidados com o corpo.
Em seu escritório, o economista, que é também professor das Faculdades Ibmec, em São Paulo, conversou com SAÚDE! sobre a importância de ensinar a criança a esperar ou, ao menos, tentar.
SAÚDE! Qual foi a experiência que o senhor relatou em seu livro e que trata da questão da espera na infância?
Giannetti Na verdade foi uma série de experimentos, realizados sempre nos mesmos moldes pelo psicólogo Walter Mischel, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Ele aplicou testes que nós chamamos de gratificação postergada em crianças de 4 a 12 anos. Imagine o seguinte: um menino de 4 anos é levado a uma sala na companhia de um adulto. Lá, eles fazem um acordo. O adulto deixará o cômodo, mas diz que voltará se a criança tocar um sino e lhe trará, então, o seu chocolate preferido. No entanto, se o garoto suportar a espera e não tocar o sino, o adulto voltará depois de um tempo com duas unidades do doce. Quais as chances de a criança levar o prêmio em dobro? Aos 4 anos de idade, praticamente nenhuma.
Giannetti Bem, à medida que a criança cresce, a paciência aumenta. É entre os 4 e os 12 anos que se constitui o equipamento cerebral e mental da espera. Por isso, aos 12, 60% dos participantes da experiência resistiram e ganharam os dois chocolates. A propósito, o tempo de espera era de 20 minutos. O curioso, porém, é que, mesmo sem terem agüentado tudo isso, o período que as crianças de 4 anos suportaram antes de tocar o sino variou significativamente entre elas.
SAÚDE! Mas nem sempre quem se preocupa muito com o futuro é mais saudável...
Giannetti Verdade. É possível notar que muitas vezes um mesmo indivíduo pode ter enorme cuidado com o futuro de suas finanças pessoais planejando desde cedo uma aposentadoria, por exemplo , mas tratar com desleixo a sua alimentação. Ora, pode-se dizer que a obesidade é o preço que pagamos por comer demais sem pensar no amanhã. Os altos índices de obesidade na infância revelam, entre inúmeros aspectos, que as crianças não compreendem que evitar o imediatismo da gulodice é fundamental para que alcancem um corpo mais magro e saúde daqui a algum tempo.
SAÚDE! E como ensinar uma criança a pensar no futuro?
Giannetti Eu acho que é possível, mas isso tem de ser feito no dia-a-dia. Não tem receita: é no varejo, aproveitando cada pequena oportunidade do cotidiano para conversar. E sempre mostrando que às vezes é fundamental fazer pequenos sacrifícios hoje para alcançar benefícios amanhã. Tenho, porém, absoluta convicção de que dar o próprio exemplo é mais importante do que dar o sermão.
SAÚDE! E a gente sempre deve dar o exemplo de esperar para desfrutar de um benefício no futuro?
Giannetti Ah, nem sempre precisamos levar o amanhã tão a sério. Às vezes, antecipar um prêmio e ser devedor no tal conceito dos juros é bom. Na vida, especialmente na juventude, é preciso ter um pouco mais de leveza e inconseqüência, desde que não se cometa nada de irremediável. O fato é que nós vamos viver muito mais do que os nossos avós e os nossos filhos irão viver mais ainda. Por isso é preciso incentivá-los a aprender a esperar. A esperar a hora do bolo, a hora de brincar, a hora de sair... Tão simples assim. Pacientes, se eles seguirem os tais padrões estatísticos, se tornarão pessoas que saberão que é preciso investir, na juventude, no corpo que terão aos 80, aos 90, quem sabe aos 100 anos.
BULLYING
Bullying, brincadeira que machuca
Bullying dói
O mal-estar causado por zombarias e violência corporal entre colegas de escola afeta a saúde física e emocional das crianças. Mas o curativo está ao nosso alcance
por GIULIANO AGMONT
ilustrações DANIEL BUENO
design ROBSON QUINA
Acena é clássica em filmes americanos: os grandalhões da equipe de futebol infernizam a vida do protagonista da trama, em geral um garoto tímido e franzino, incapaz de se impor diante da brutalidade dos colegas. O garoto indefeso é perseguido, ridicularizado, humilhado e, nas cenas mais dramáticas, até surrado, enquanto seus algozes saem impunes. No decorrer da película, o personagem principal, com auxílio de seus amigos nerds, rebela-se contra a tirania dos agressores e passa de vítima a herói.
Na vida real, no entanto, as histórias em que há esse tipo de violência nem sempre acabam com o mesmo final feliz e hollywoodiano. O fenômeno conhecido como bullying tem consequências preocupantes para a saúde física e principalmente emocional de seus atores — tanto faz se são os agressores, as vítimas ou as testemunhas. E o que é pior: a intimidação, o medo e a vergonha sedimentam um pacto velado de silêncio entre os jovens. É comum que pais e educadores só se deem conta do que está acontecendo quando a situação chega a extremos. Diante de quadro tão crítico, a pergunta é uma só: o que fazer?
“Em primeiro lugar, manter a calma”, aconselha o pediatra Aramis Antônio Lopes Neto, do Departamento de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria. Entender o fenômeno é um excelente começo. Sem tradução direta para o português, o termo é utilizado para designar violências físicas e psicológicas praticadas de forma recorrente por um indivíduo ou um grupo deles contra um mesmo colega, que acaba se tornando uma espécie de bode expiatório. Mais frequente na escola, nada impede que aconteça no condomínio, no bairro, na família e no trabalho — adultos também podem sofrer com esse tormento.
A maneira de agredir varia muito: verbal, física, moral, material e até sexual. As crianças apelidam, batem, amedrontam, discriminam. De uns tempos para cá, e-mails, blogs, fotos e SMSs incrementaram o arsenal da garotada — criando a variante batizada de ciberbullying. O motivo que justifica o ato violento, em geral, é apenas um pretexto, qualquer coisa que diferencie a vítima: estatura, peso, pele, cabelo, sotaque, religião, notas, roupas, classe social ou outra característica que sirva ao preconceito.
“O bullying faz muito mal à saúde”, enfatiza o pediatra Lopes Neto. “Para que se desenvolva adequadamente, uma criança depende do bem-estar físico, psíquico e social. O ambiente violento abala esse equilíbrio e impede que os jovens cresçam de modo saudável”, resume. Entre as consequências, podem aparecer fobias, depressão e, nos casos mais graves, estresse pós-traumático.
Vale repetir que todos os que vivenciam essa história podem ser afetados. Se o quadro de perseguição está em um estágio inicial, e afetar sobretudo crianças pequenas, pais e orientadores têm plenas condições de contornar a situação sozinhos. “Quanto antes as agressões forem identificadas, mais fácil será neutralizá-las”, garante a pedagoga Cléo Fante, presidente do Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobe), que fica em Brasília.
A família e a escola devem trabalhar juntas, buscando uma abordagem indireta, de refl exão e conciliação, e nunca de confrontação e repreensão. “As ferramentas mais eficazes para ensinar regras de convivência saudável aos filhos são o afeto incondicional, o diálogo e as atividades educativas, como jogos esportivos, aulas de arte e ações solidárias”, orienta Cléo. “Já nos casos sérios, em geral com adolescentes, a ajuda de um médico ou terapeuta será necessária”, diz ela. “E talvez os envolvidos tenham até mesmo de ser transferidos de escola.”
O psicólogo José Augusto Pedra, consultor do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe-DF), diz que os pais também precisam estar atentos às próprias atitudes dentro de casa. Gestos, tons de voz, toques e expressões faciais marcam a moçada muito mais do que discursos, especialmente até os 7 anos de idade.
Lógico: pais que vivem ausentes ou estressados por causa do trabalho e que costumam usar gritos, tapas e murros para exercer sua autoridade vão transmitir esse modelo de relacionamento aos filhos, mesmo sem perceber. “As crianças incorporam comportamentos e acabam reproduzindo-os quando estão em um ambiente sem hierarquia, seja como vítimas, seja como agressoras”, enfatiza Pedra. Ficar atento a isso tudo é crucial para qualquer roteiro terminar bem.
http://saude.abril.com.br/edicoes/0310/familia/conteudo_450282.shtml?pag=2